O que faz um CEO? (parte 2)

House of Cards é um seriado bacana, o protagonista é um congressista democrata americano bem sucedido, Frank Underwood. A história gira em torno de como ele, sua esposa e seus assistentes manipulam e jogam sujo para atingirem seus objetivos, é um programa cheio de méritos, bons atores, script, direção, etc, segue a linha dos seriados descolados modernos tipo breaking bad, dexter, game of thrones e tantos outros onde o crime compensa, onde ser filho da puta, bandido e desonesto é ser esperto.

Independente dos valores passados, é bom entretenimento. Recomendo fortemente.

Uma das lições recorrentes mais reais sobre política deste seriado é a de que contar com um repertório de podres do passado de alguém é um trunfo poderoso.

Sem grandes spoilers, no primeiro episódio da segunda temporada, Frank em vias de se promover precisa de um aliado para substituí-lo no cargo de líder de bancada (não sei se é bem este o termo, em inglês “Majority Whip”), e decide apoiar uma novata com poucos podres conhecidos enquanto deixa dois membros mais experientes e com mais cicatrizes tirarem votos um do outro.

Jackie Sharp olhando os dossiês de cada concorrente no computador de Frank

Esta foto é do trecho onde Frank mostra para a Jackie Sharp os dossiês com os podres que ele levantou sobre cada um dos demais candidatos no computador dele e também, claro, o dossiê dela.

Algumas questões

  • Você, entusiasta da Mozilla ou usuário de Firefox, saberia de memória dizer quais foram os 3 últimos CEOs da empresa?
    • quais foram as grandes realizações de cada um deles durante o período que ocuparam este cargo de liderança?
  • O que faz um CEO?
    • A Mozilla precisa de um?
  • Como é o processo de escolha de um novo CEO dentro da Mozilla?

Eu por acaso sei a primeira resposta: Gary Kovacs, John Lilly e Mitchel Baker. Ja tive inclusive a oportunidade de conversar pessoalmente com cada um deles pois sempre foram bem acessíveis, mas nunca senti um impacto perceptível do trabalho deles (que eu sei ser gigantesco) na minha vida, no meu cotidiano.

Para mim sempre foi mais visível, importante e relevante o trabalho dos que estão nas pontas, dos que sentam na frente da máquina e fazem acontecer, dos que codificam e concretizam as idéias, dos que se apropriam das vantagens do modelo aberto e deixam suas contribuições nas suas áreas de interesse, os engineers, os voluntários, os drivers, os evangelistas, os hackers. A Mozilla desde o início foi um projeto muito orientado aos produtos em si, muito transparente e com uma topologia mais descentralizada e bottom-up do que concentrada e top-down.

A meritocracia dentro desta comunidade global sempre foi medida pelos patches, no melhor estilo “show me the code”. É um lugar onde se você quiser viver em uma caverna e ser apenas reconhecido pelo seu nickname e suas contribuições forem boas para o objetivo de manter a web aberta, ninguém vai te julgar. Sempre foi um ambiente inclusivo um lugar onde com quem você se relaciona em sua vida privada, como você se veste, qual seu sexo, nacionalidade, religião, que música ouve, ou do que se alimenta pouco importam. O que fica exposto no fim do dia é o produto do seu trabalho e é por ele que cada contribuidor é analizado.

O dia que um bom patch ou outro tipo de contribuição for negada porque o autor votou no Bush, deu dinheiro para a campanha do Obama (que mata gente com drone e apoia a vigilância da NSA), ou porque vende memorabilia comunista no mercado livre, tem pacto com o pemba, cheira mal, bate nos filhos, ouve som alto, acredita em ET, acha imoral o sexo fora do casamento, fez doacões para o Greenpeace ou para a NRA, possui o mesmo corte de cabelo que o grande líder, praticou bullying na infância, fica parado no lado esquerdo da escada rolante, acredita que o homem nunca pousou na Lua, come carne de porco ou não recicla o lixo, este será o dia em que uma das maiores vantagens de um projeto global e aberto terá se perdido e eu não me espantaria se este fosse o dia do início da implosão total do projeto Mozilla.

Brendan Eich, o novo CEO no town hall

Pois bem, finalmente chegamos na questão título desta série de posts: O que faz um CEO? Esta pergunta são duas perguntas na verdade: 1. quais são as funções desempenhadas por um CEO e 2. quais são as características de um bom CEO, o que constitui um CEO, de que ele é feito?

Esta terça, quando deveríamos estar comemorando o aniversário de 16 anos do projeto Mozilla, muitos de nós estavam assistindo um streaming, organizado para responder as questões dos colaboradores em relação a escolha de Brendan Eich como novo CEO, um pequeno tsunami de perguntas que até onde sei (re)começaram com este post e escalaram para uma bola de neve gigantesca.

O busilis é: Brendan doou dinheiro no passado para uma campanha a favor de mudar a constituição da Califórnia e incluir a frase que diz que um casamento é a união de um homem com uma mulher (SEC. 7.5.). A campanha ganhou, a constituição do estado mudou e vidas de casais de mesmo sexo foram afetadas por 4 anos, até a suprema corte americana declarar que a decisão de proibir casamentos gay era inconstitucional.

Durante esta reunião eu acho que entendi quais são as funções de um CEO da Mozilla, pelo que eu ouvi do Brendan neste dia, seria algo como:

  • recrutar gente
  • negociar parcerias
  • executar as decisões do board (CEO não faz parte do board, ele responde ao board)

O que constitui um bom CEO então, uma característica necessária para exercer o cargo é conseguir exercer alguma liderança.

Mais de 100 candidatos foram avaliados para a vaga, em um processo nada transparente, um ano de busca, que começou na época que o vaticano soltava fumaça branca… eu até fiz um site do tipo "Are we having CEO yet?" na época, muitos questionaram se a empresa poderia ser uma sem um CEO devido às características do projeto.

Destes tantos candidatos, Brendan foi o mais capacitado, parece fazer sentido se você levar em conta a cultura da empresa e o que é importante, o que ispira os que estão nas pontas trabalhando, os que fazem.

Quem melhor que um cara com tantas contribuições, que esteve na empresa desde o início, que inventou o Javascript para liderar uma empresa com esta cultura?

Parecia um bom plano, durante todo o período em que foi CTO, seu passado anti-casamento não interferiu, não se tem notícias de que ele tratasse os funcionários gays de maneira diferente…

Mas a escolha decorrente deste processo pouco transparente não deu certo, não houve no board alguém que assistisse House of Cards (ou simplesmente tivesse sofrido pressão de grupos militantes antes), alguém que conseguisse prever a tempestade que viria, tempestade esta que pode muito bem significar o fim da história da Mozilla.

(Brendan pediu demissão do cargo de CEO e anunciou que vai sair da Mozilla, o assunto não está esgotado, há muito o que aprender com este episódio e pode ser que eu me anime de escrever uma parte 3)

Fabricio Campos Zuardi

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