Sobre voltar a ser estudante

Semana passada comecei a fazer um curso de Animação 3D na Oficina Cultural de São Carlos com o ilustríssimo professor Subaco e seu assistente Gustavo. Dua figuras conhecidas do circuito boêmio-cultural da cidade… me inscrevi pois a ferramenta utilizada durante o curso é o Blender, um software que eu aprendi a amar este ano.

Desde a minha crise existencial, passei a usar Debian quase que full-time no meu computador e me dei a chance de tentar mudar de área: me afastar da computação (largar ainda não é uma opção realista/sensata), e me aproximar do cinema.

Por que cinema?

Bem… na minha cabeça, se o inimigo é Hollywood e a indústria que bota cadeados na cultura, um bom começo seria mirar o estilingue para a Disney que é incontestavelmente a maior representante dos que tratam idéias como propriedade privada, e que pega a molecada desde cedo (tente entrar numa loja de brinquedos e procurar por algo que não seja licenciado de nenhuma franquia grande).

A maior referência de vida de uma das pessoas que eu mais gosto (meu sobrinho de 2 anos) é um filme muito bom da Pixar (que é Disney)… eu mesmo cresci lendo, assistindo e brincando com super-heróis (Marvel é Disney) e personagens que apesar de habitarem o imaginário de um tanto bom dos humanos do nosso planeta, são personagens que oficialmente, ou ao menos no papel, têm dono.

Para quem dá as cartas na indústria do entretenimento hoje, e que consegue ferrar com projetos bacanas tipo o da antiga Mozilla, os mundos, personagens e as histórias que estão nas nossas cabeças não seriam nossos, mas sim deles, as músicas que eu ouvi na rádio nos anos 80, 90, ou ontem e que eu cantarolo no banheiro não são minhas, eu não poderia me apropriar delas sem permissão, é vital para eles que estas obras não retornem ao domínio público no nosso tempo de vida… é surreal, é ridículo.

E é ainda mais chato pelo fato deles saberem fazer produtos muito bons! O que foi este último filme dos Guardiões da Galáxia por exemplo, nota 10, vai cagar…

Citando um artigo do Mike Masnick: "Our Lost Culture: What We Lose From Having Killed The Public Domain"

What defenders of restrictive copyrights often fail to recognize is that the public domain is what made culture culture. Culture is a shared concept, in which lots of people are all experiencing the same or similar things -- and making it their own as a part of that. We used to share stories, retell jokes, build on and change the works of others, and it was that shared effort that built culture and helped it spread. But copyright law has changed all that. Rather than a true cultural phenomenon, where culture is built up by the public in terms of what they create, share and build upon, we now have a situation where the gatekeepers decide what culture is, push it on everyone via broadcast means, and then tell us not to do anything about it... unless we pay exorbitant sums. That's a perverse understanding of how culture happens, and one that does not benefit creators or the public (often one and the same), but is hugely beneficial for a few gatekeepers.

A Mozilla fazer a vontade dos usuários de Netflix sem tentar educá-los minimamente, ceder às alegadas pressões do mercado para "sobreviver" e implementar no navegador mais uma janela para a entrada de DRM na vida das pessoas, uma tecnologia que restringe o compartilhamento de cultura, é na minha opinião o cúmulo. Um enorme erro estratégico além de uma quebra de confiança e ao mesmo tempo um chamado e um estímulo para sair da zona de conforto e fazer algo a respeito.

Enfim… para oferecer alternativas e contrapontos a estes modelos e mentalidades, eu preciso produzir conteúdo, preciso contribuir com exemplos que ajudem a mostrar o potencial da cultura livre e que demonstrem viabilidade comercial e sustentabilidade. Preciso fazer filmes, seriados, escrever músicas, roteiros, livros, poesias, desenvolver jogos… etc. De preferência bons e lucrativos, para que eu não precise viver de favor, me prostituir ou morrer de fome

O estado atual das ferramentas livres

Nesta jornada, me forcei a experimentar muitos dos softwares de multimídia livres, tanto para fotografia quanto para edição de vídeos e animações, experimentei de tudo na minha busca pelo workflow de cinema livre ideal: KDEnLive, Melt, flowblade, Shotcut, Lightworks, Ardour, Pitivi, Cinelerra, Openshot, Cinepaint, Novacut, VLMC, Darktable e o Blender (além de Gimp, Inkscape, FFMPEG, mencoder Audacity, Magic Lantern e VLC que já faziam parte do meu cotidiano antes). Recomendo que os interessados na área façam o mesmo e explorem todas estas opções, ter escolha é sempre bom.

Para quem usa opções comerciais-pirateadas mais tradicionais, tipo: Sony Vegas, Final Cut, Adobe Lightroom, Photoshop, Ilustrator, Flash, Premiere, Magic Bullet, Modo e afins as interfaces e usabilidade da imensa maioria dos seus equivalentes livres são não apenas feias e horripilantes, mas podem ser resumidas como simplesmente erradas. A interface do Cinelerra deve ser capaz de causar danos permanentes à retina de algum profissional da área de Design ou User Experience que inadvertidamente abra o programa… sério. (sério mesmo, tem um botão que é uma foto do Bush… uma, FOTO, do, ex, presitente, George, W, fucking, Bush).

Não que a capacidade dos softwares seja inferior, não é, são todos softwares muito capazes e poderosos, fazem tudo e mais um pouco. O problema maior na maior parte das vezes é a interface mesmo.

Destes testados, os que mais me pareceram profissionais, foram o Darktable e o Blender. Pode parecer piada, mas o melhor editor de vídeo, no mundo do software livre, não é um software específico de edição de vídeo, mas um software tradicionalmente conhecido pela sua função principal de modelagem 3D, o que é uma consequência do excelente trabalho da comunidade incrível que cuida deste software e o utiliza para todo o processo dos filmes livres que produzem de forma participativa e colaborativa(assistam todos!). No youtube você pode achar alguns tutorials de como usar o Blender para editar vídeos.

O Darktable seria o equivalente ao Lightroom, um software para organizar coleção de negativos-digitais de fotos com as informações extras armazenadas nos formatos RAW e exportar as imagens ajustadas depois… o blender até possui ferramentas para color correction e outros ajustes, mas são mais limitados para fotos importadas já que ele não suporta RAW. Então minha recomendação é fazer os ajustes de cores antes (caso esteja trabalhando com fotografias) nele e depois terminar de montar o filme no Blender.

Experimentos com Darktable + Blender

Abaixo alguns filmes de animação que fiz usando esta dupla sensacional:

Touro Branco

Pato Verde (4k)

Breath

Congratulations Germany

Concluindo

Neste contexto, pintou a oportunidade de fazer um curso gratuito e presencial de animação e modelagem 3D, que cobria uma parte do software que eu nao havia explorado ainda. Achei oportuna, estou empolgado e ao mesmo tempo um pouco receoso com esta nova fase da minha vida, recomeçar e voltar à sala de aula é sempre algo muito difícil, eu poderia me arriscar e seguir na linha auto-didata apenas aqui de casa mais um pouco, já que hoje existe tudo na Internet. Mas considerei que além do conhecimento técnico, vivência com outras pessoas da área e a troca de idéias com outros artistas conta muito, e para isto eu tenho que ver gente.

No próximo post vou tentar escrever um pouco de como esta sendo o aprendizado e postar uns resumos que fiz das aulas :)

Fabricio Campos Zuardi

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